Precisamos de energia e de usá-la de forma eficiente

Falar de energia é sempre um tema aliciante, mas também difícil, no sentido de nãonosconseguirmos libertar totalmente dos interesses dos setores nos quais estamos inseridos, levando-nos muitos vezes a análises pouco rigorosas. É o que tentarei evitar, cingindo-me tanto quanto possível a dados reais e a previsões de entidades independentes e insuspeitas.
 

Há duas questões que parecem incontestáveis: 1) o mundo precisará de quantidades crescentes de energia para sustentar o seu desenvolvimento económico e social; e 2) o uso da energia tem impacto no planeta, quer ao nível da delapidação dos seus recursos naturais, quer ao nível do clima e da qualidade do ar.
 

Em relação ao  ponto 1), a população crescente e a melhoria do seu nível médio de vida leva-nos a projeções que apontam para um crescimento das necessidades energéticas de cerca de um terço dos valores atuais, até 2040, muito impulsionada pelas economias emergentes, nomeadamente China, Índia, Médio Oriente e Sudoeste Asiático (IEA World Energy Outlook 2015). Em contrapartida, assistir-se-á a uma redução nos países da OCDE, quer devido à estagnação da população, quer à crescente eficiência energética destas economias.
 

O cabaz energético sofrerá também uma alteração material, fazendo com que as energias fósseis vejam a sua participação reduzida de 81 para 75%. Mesmo assim, e ao contrário do que por vezes vemos anunciado, teremos três quartos da energia primária total em 2040 com origem nos combustíveis fósseis, apesar de um crescimento notável das renováveis e de um comportamento mais modesto do nuclear.
 

Isto leva-nos à segunda questão que se prende com o impacto da utilização destas fontes de energia no clima e na qualidade do ar. Temos de reconhecer que se têm feito progressos notáveis através do “fuel switching”, principalmente na produção de energia eléctrica, migrando do carvão para o gás natural, e da eficiência energética, particularmente na indústria. Sendo a energia um custo de produção muito significativo, a própria lógica económica impele a procura de soluções que minimizem o seu consumo. Nos setores de edifícios e serviços, não se tem assistido ao mesmo progresso, talvez porque o peso do custo da energia seja bem menor, tornando-se por isso necessário criar mecanismos de sensibilização e incentivo para conseguir maiores progressos.
 

Deixo para o fim o setor dos transportes. No sector ferroviário, houve forte penetração da eletricidade, já que é fácil manter a alimentação através de uma rede fixa paralela à via-férrea. Esta possibilidade não existe nos restantes meios de transporte, rodoviário, aéreo e marítimo, onde se exige uma autonomia dos próprios veículos, que só os produtos derivados do petróleo conseguem assegurar de uma forma simples e custo-eficiente. Sem prejuízo do aparecimento e crescimento de fontes alternativas, mesmo que ainda fósseis, casos do GPL e do Gás Natural, ou da eletricidade e hidrogénio, estas dependentes da origem da fonte primária que serviu para a sua produção, os derivados do petróleo vão, por muitas décadas, continuar a ser a fonte de energia dominante neste sector. As questões da qualidade do ar têm vindo a ser mitigadas com o aperfeiçoamento dos motores de combustão interna e a aplicação de componentes auxiliares para a redução da emissão de partículas e outros componentes nocivos à saúde humana. As questões das emissões de gases com efeito de estufa também têm sofrido uma forte melhoria, com o aumento significativo da eficiência desses motores.
 

Em síntese: precisamos de energia, temos de saber usá-la de forma eficiente, temos de diversificar o cabaz energético e de mitigar os efeitos inevitáveis que a sua utilização tem. Mas devemos fazê-lo de forma pragmática, encontrando as soluções mais custo-eficientes na prossecução dos objetivos. É aqui que os Governos e os Organismos supranacionais têm um papel a desempenhar, criando condições que não sejam discriminatórias e possibilitem às empresas e aos cidadãos fazerem as escolhas acertadas.